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Música como Recurso de Enfrentamento em Pacientes Oncológicos e Familiares

Recentemente, foi publicado artigo que teve como objeto de estudo o Projeto Música e Terapia, desenvolvido há anos aqui na Oncotrata.

Você pode ler o material na íntegra clicando AQUI

Separamos para você as considerações feitas pelas pesquisadoras, dentre elas, a nossa psicóloga Natália Frizzo, com base nas entrevistas a pacientes e familiares que participam do projeto. Acompanhe:

 

Paciente, diagnóstico e quimioterapia: “Quero lhe contar de tudo que aconteceu comigo”

O momento da revelação do diagnóstico de câncer pode ser de grande impacto para o sujeito acometido pelo adoecimento. Petersen (2012) explica, de maneira objetiva, que, por ser uma enfermidade de cunho ameaçador à vida num amplo aspecto, a doença oncológica acaba ocasionando sentimentos de perda. Assim, ele sugere o depoimento da paciente, ilustrando a explicação do autor:

Foi um baque, né, foi um balde de água fria, me senti impotente, me senti assim, perdida total. Peguei o diagnóstico e dirigi, eu chorava na rua. Assim, eu me senti já com o diagnóstico final da morte, me senti assim muito ruim, muito mal mesmo (Paciente 2).

Segundo Costa, Finco, Souza, Medeiros e Melo (2016), a palavra câncer trouxe historicamente um sentido sociocultural de uma doença que remete a uma sentença de morte. Ainda que os avanços tecnológicos tenham contribuído para melhores tratamentos e diminuição da taxa de mortalidade, pode-se observar que o estigma de ser uma doença dolorosa e que mata lentamente persevera entre alguns pacientes acometidos por essa enfermidade:

Eu morri naquele dia. Eu quase caí dura, não conseguia nem levantar da cadeira, né? Daí eu fiquei paradona, parada, né? Apavorada, eu vou morrer, é só no que eu pensei, vou morrer (Paciente 8).

Ressalte-se que o adoecer retrata uma ruptura na vida, em planos e perspectivas de futuro (Costa et al., 2016). Tal experiência faz com que os sujeitos precisem buscar formas de enfrentamento para essa nova situação, como menciona a fala:

Não vou te dizer que eu gostei, gostar ninguém gosta, ninguém quer, mas foi uma coisa… Bem, querer eu não queria, mas veio para mim, então eu vou carregar, vou seguir em frente, vou lutar (Paciente 4).

E é frente a essa busca de recursos que a musicalidade, então, aparece, como ferramenta capaz de instrumentalizar os sujeitos em suas batalhas pessoais. É também nesse sentido que os encontros musicais oportunizam o espelhamento de situações de vida, despertando uma sensação de integridade social e evolução cognitiva, ressignificando as emoções e o sentido da vida (Bergold & Alvim, 2011).

Assim, o espaço coletivo em que acontece uma atividade musical pode vir a atuar como porto seguro para oportunizar a manifestação das emoções e acolhê-las. Pois se o sofrimento no câncer é multifacetado, o papel do profissional de saúde, principalmente do psicólogo, nesse contexto é facilitar, também com variados recursos – como a música, pelo acolhimento da melodia, por meio das letras das canções – a situação do enfermo, para que ele possa, como diz a composição, “contar de tudo que aconteceu comigo”. Assim, um caminho que permita ao doente compreender o impacto do diagnóstico e os modos possíveis de enfrentamento da doença pode se estabelecer. E pode-se almejar, por meio da mediação nas inter-relações (Zanetti, 2008), que o reestabelecimento de saúde mental aconteça conjuntamente ao tratamento físico vivenciado, alcançando resultados biopsicossociais.

Por sua vez, conjuntamente ao processo de elaboração/aceitação do diagnóstico oncológico, o tratamento quimioterápico destaca-se como potencial desafio cotidiano. A pessoa que convive com a enfermidade vive simbólica e corporalmente processos complexos considerados diante do fenômeno de saúde e doença (Costa et al., 2016).

Tal complexidade, da qual fala a autora, se vê nos depoimentos a seguir, que manifestam os impactos corporais, os sintomas e as adaptações à doença, e também a busca por compreensão da própria enfermidade frente aos efeitos de uma quimioterapia:

Ah, é uma coisa que a gente sabe que entra no corpo, parece uma onda, sabe, que leva tudo, leva tudo embora. Sabe aquelas ondas que olha, o primeiro ciclo eu achei que teve muitas reações adversas assim… (Paciente 7).

No fundo foi até bom, que eu vim sem saber. . . . Mas foi muito bom ter vindo sem saber nada, porque as pessoas falam muito, estragam muito a gente, isso até, às vezes, foi bom ter vindo sem saber nada, porque varia [os efeitos colaterais] de pessoa para pessoa (Paciente 8).

Assim, a quimioterapia aparece circundada por sentimentos múltiplos que podem paralisar o sujeito, como é o caso do medo, se ocorrer de este se tornar uma barreira para a aceitação do adoecimento. E a atenção aos anseios precisa ser ofertada porque estes podem estender-se para complicações no tratamento quando atrelados à descrença quanto à possibilidade de cura (Conde, Lemos, Pozati, & Ferreira, 2016), como se pode ver neste depoimento: “a gente olhava para a quimio como se fosse…ah, está passando por isso e não vai adiantar nada’” (Paciente 6).

Entende-se, assim, frente a uma terapêutica historicamente assustadora e impactante como a quimioterapia, e diante da ruptura que a doença grave produz na vida do sujeito, que este necessita buscar modos de ressignificar a experiência e enfrentar as variadas adaptações necessárias a esse novo momento experienciado (Costa et al., 2016).

Nesse contexto, a psicologia assume importante papel de mediar o real (tratamento) e o simbólico (expectativas sobre o tratamento), contribuindo para o entendimento psicoemocional do paciente (Doro et al., 2015). Por meio da música, um novo recurso se apresenta, inspirando novas formas de cuidado aos dias dos doentes, imprimindo-lhes a sensação de suporte e ofertando novos sentidos a seu existir no mundo com o câncer. A música pode, então, subsidiar o compartilhamento de experiências, expectativas e estratégias para lidar com o impacto quimioterápico. Ou seja, a atividade musical acaba por intermediar o estar com o outro em sua fatalidade existencial (Silva & Sales, 2013).

Família, diagnóstico e quimioterapia: “E quando vejo o mar, existe algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobagem”

Quando se recebe um diagnóstico oncológico, não só o paciente, mas sua rede de relações também sofre impacto (Bergold e Alvim, 2011). Tanto o cônjuge como outras pessoas significativas da família proporcionam importante fonte de apoio social para muitos pacientes de câncer. Quando o doente percebe que essa relação é sólida e apoiadora, seu bem-estar físico e emocional obtém grandes benefícios, pois o relacionamento atua como fonte de amparo, como aponta a fala a seguir:

Na hora de receber o resultado do diagnóstico do médico, ficamos calados, porque a gente esperava uma resposta, e aí a gente se olhou um para o outro, e ele disse assim, vamos em frente, eu quero fazer o tratamento, e foi assim, uma coisa que mostrou que nós dois, a gente ainda tinha muita energia pela frente, que a gente estava lutando para conseguir prolongar essa vida (Familiar 1).

Contudo, Karkow et al. (2015) explicam que alguns familiares reconhecem o estigma do câncer, e isso também implica um abalo pessoal, pois consideram que essa imagem ajuda a aumentar o medo e a preocupação em relação ao que pode vir a acontecer com seu familiar:

Foi um baque, um impacto muito grande assim porque ela é irmã mais velha, ela estava passando por esse problema de saúde. Foi um baque assim, porque tu fica com aquela memória, que câncer te mata logo,? (Familiar 2).

O impacto foi chocante porque a gente não tinha conhecimento de nada e pegou toda a família de surpresa, quando deu que era positivo nos derrubou, né?! (Familiar 3).

Desse modo, ao mesmo tempo em que o apoio da família é um dos principais recursos externos utilizados pelo paciente para o enfrentamento da doença, os familiares também sofrem ao lidar com as necessidades emocionais do integrante adoecido. E vale ressaltar que, muitas vezes, o câncer é percebido como uma doença ameaçadora à vida, daí o temor que ele acarreta (Karkow et al., 2015), como se observa:

No primeiro momento, não queria falar do assunto, né, eu fugia do assunto, eu que às vezes fico aborrecido com a possibilidade de ficar sozinho (Familiar 4).

Olha, no primeiro momento eu senti o fim da vida, que é uma doença que todos têm medo de falar (Familiar 7).

Apreende-se, então, que o sofrimento pela condição de saúde do ente querido pode encontrar abrigo nas atividades musicais pela oferta de uma escuta pautada na visão transdisciplinar de cuidados de saúde (musicistas, psicólogos, equipe assistencial). O intercâmbio entre a música, suas letras e a atenção dos profissionais ali presentes oportuniza compreender o relacionamento interpessoal, a expressividade emocional e afetiva e os aspectos histórico-culturais dos indivíduos e grupos que ali passam a conviver (Ruud, 1998).

Também vale acrescentar que, diante da impossibilidade de alterar a situação do diagnóstico, cabe aos familiares lidar com sua angústia e com a própria fragilidade, validando a necessidade de apoio para o enfrentamento de sua condição existencial. Isso se dá porque o câncer desperta sentimentos de vulnerabilidade, receio, insegurança e incerteza (Silva et al., 2014). O que é possível perceber no relato:

Daí a gente se perguntou e agora? Quem vai dizer para ele, como eu vou dizer para ele? Não posso, né, eu disse, não, vou marcar consulta amanhã com o médico dele lá de Osório, né, que daí ele vai falar, né. Daí quando ele falou eu dei uma baqueada assim feia (Familiar 5).

É nesse contexto que se entende a relevância da partilha grupal mediada pela musicalidade, pois ela pode atuar como recurso de acolhimento e é capaz de favorecer o estabelecimento de relações e vínculos voltados a uma concepção humanizada do cuidado. As emoções evocadas pela doença e a tentativa de ressignificar a experiência podem encontrar nas letras das canções uma espécie de consolo. E o espelhamento produzido no coletivo, que compartilha vivências similares diante da enfermidade, permite que a música atue como elo entre subjetividades, reduza a sensação de despersonalização, aumente a autoestima e proporcione conforto e bem-estar. Ressalte-se também que, nesse processo, a participação dos sujeitos na escolha musical permite estimular sua autonomização (Bergold & Alvim, 2009).

Contudo, não só pelo impacto do diagnóstico sofrem as famílias. Seus anseios muitas vezes também se estendem ao possível impacto do tratamento antineoplásico (Silva et al., 2014), como aponta a fala: “a gente chegou meia assustada, eu confesso, eu já tinha convivido muito com quimioterapia por causa da minha irmã, que eu acompanhava ela em tudo, mas mesmo assim fiquei meia assustada” (Familiar 5).

Existem ainda dificuldades da família em lidar com os efeitos colaterais e com as crenças negativas sobre a quimioterapia. De acordo com Farinhas, Wendling e Dellazzana-Zanon (2013), problemas de ordem emocional que ocorrem com frequência em pacientes com câncer também acometem seus familiares:

Essa quimioterapia parecia um deus nos acuda, porque a gente não sabia a profundidade dessa doença e desse tratamento (Familiar 7).

Ela não aceita muito ter perdido o cabelo, essas coisas assim, agora que ela está de peruca, com outro astral, né, mas o início foi difícil, então eu fiquei abalada com ela por esse início (Familiar 2).

Quando a “Paciente 6” chegou a ficar totalmente sem cabelo, que foi a primeira fase das sessões, os irmãos homens ficaram mais transtornados (Familiar 6).

Compreende-se, assim, o quanto a família angustia-se e identifica sua própria fragilidade, evidenciando a necessidade de amparo para encarar a atual situação (Silva et al., 2014). A musicalidade, nesse contexto, aponta como válvula de escape dessas emoções. As lembranças das primeiras vivências do tratamento, marcadas por receios e dúvidas, cedem espaço ao entretenimento, conduzindo a momentos de emoção compartilhada. Como recurso de comunicação, a música consegue promover relação interpessoal e abertura para o discurso, viabilizando o atendimento das necessidades emergentes.

Vale ressaltar ainda que, frente às memórias evocadas pelas experiências iniciais com a quimioterapia, a ação reflexiva da música permite promover a receptividade, estímulos e relaxamentos, explorando ideias e pensamentos. E isso, como aponta Bruscia (2016), acaba por facilitar a ressignificação dessas reminiscências e estabelece conexões entre o ouvinte e o grupo, ampliando a capacidade de oferta de suporte dos profissionais. E no caso da psicologia, expande-se a escuta ativa, que é orientada para favorecer melhores adaptações ao tratamento oncológico.

Assim, é no encontro de pluralidades que a prática musical acontece, desempenhando papel comunicador e disparador de sensibilidades e de recursos para encarar o câncer. Por meio da música, torna-se possível identificar e expressar muitas das emoções que a palavra pura não consegue manifestar. A linguagem configura-se, portanto, como uma das maneiras de ser-estar no mundo e também atua como caminho para ver-se absorvido por ela. Desse modo, se diante da doença “a vida continua e se entregar é uma bobagem”, a comunicação estabelecida nos encontros musicais fornece guarida para que os sujeitos expressem suas percepções sobre a canção e sobre o novo papel agora ocupado pela família – cuidadores informais de alguém que se ama (Sales, 2011).

O paciente e o impacto da música no tratamento: “Que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita: É bonita, é bonita e é bonita!”

Oliveira, Oselame, Neves e Oliveira (2014) enfatizam que, dentre as terapias integrativas mais usadas, a música destaca-se como recurso terapêutico complementar a um tratamento quimioterápico, promovendo alterações físicas, mentais e sociais. Ela pode ser utilizada pela equipe de saúde com o intuito de oferecer um tratamento mais humanizado, melhor interação entre a equipe e o paciente e entre a própria equipe multidisciplinar da saúde.

Pode servir ainda como intervenção complementar para o alívio da dor e de outros sintomas, como a angústia espiritual, distúrbios do sono, desesperança, risco para solidão, isolamento social e estresse (Gonçalez, Nogueira, & Puggina, 2008), auxiliando a recuperação da saúde mental e a adaptação ao tratamento de uma enfermidade, como se pode observar nas falas a seguir:

Escutando a música é outra coisa, desvirtua o cérebro, não pensa em nada, pensa na música, não pensa em doença, tratamento, passa o tempo a música, né (Paciente 5).

As pessoas ali hoje eu acho que estavam brincando, fazendo tricô, porque eu achei que elas, graças a deus, não tinham nada. Eu acho que a música espairece e tu se esquece do problema que tu tem, entendeu? Então a música ajuda a espairecer e a gente a não imaginar o que está entrando pelo corpo da gente (Paciente 8).

O excerto a seguir, em consonância, ilustra o que Petersen (2012) destaca ao afirmar que a música entra como uma ação terapêutica que pode trazer também a reflexão sobre os aspectos emocionais, desencadeando questionamentos sobre o sentido e o cuidado com a vida durante o tratamento:

Ah, é muito bom, é ótimo, é excelente porque trata de alma, escutar a música é vivenciar a vida, faz com que a gente pense, retroceda ao passado e traga ele para o presente e pense na gente mesmo, em si mesmo, . . . parar e pensar na letra, e isso com certeza motiva a gente a se cuidar, começando pela alma, que eu digo que escutar música faz bem para a alma, para a nossa saúde mental e isso é maravilhoso. (Paciente 3)

Em relação aos efeitos psicológicos da música, Bréscia (2009) expõe que a mesma pode servir como uma espécie de elo, com suas experiências significativas do passado, particularmente no que diz respeito a melodias que evocam memórias específicas:

Para mim, hoje ter participado desse momento foi maravilhoso, foi como ver a criança que tinha em mim, passou um filme em minha cabeça através da música, isso faz bem para a gente parar para pensar, escutar a música, escutar a letra da música. Foi maravilhoso, isso faz muito bem, é saúde. (Paciente 3).

A música te reporta para umas coisas gostosas, de infância, de memória, coisas boas que você viveu, vive, né, então é uma terapêutica, eu sinto como uma terapêutica, ela está fazendo a integração da minha quimio, eu acho que a música é uma coisa indescritível, eu acho que você fecha os olhos e se reporta, você viaja, é muito gostoso, é muito bom (Paciente 2).

Muita lembrança, né, coisas assim mais antigas, eu gosto, não sei que nome dar, mas eu acho que é lembrança, né, o passado vem aflorando assim, né. Aquela coisa assim que a gente gosta muito (Paciente 6).

A música promove, assim, melhorias no estado anímico do paciente, estimula funções cognitivas, ativando memórias para fatos e eventos, favorece o desenvolvimento da comunicação (verbal e corporal), facilitando uma melhor adaptação ao tratamento (Bréscia, 2009). Daí a importância de oferecê-la como uma atividade complementar enquanto o tratamento quimioterápico acontece.

Nessa perspectiva, Fallavigna et al. (2016) explicam que a música ocupa o lugar da emoção e possibilita a travessia entre o emocional e o racional, mobilizando conteúdos com os quais a comunicação verbal muitas vezes não é suficiente para lidar. Ela favorece a transcendência de sentimentos que poderiam atuar como angustiantes, cedendo espaço para o bem-estar:

Ah, eu acho assim que a música te dá uma paz, uma leveza, tu fica leve, dia de quimio para mim, eu venho feliz da vida, porque assim, tem a música, sinceramente eu venho para cá e o dia da quimio é o dia bom da semana, eu esqueço que eu tenho casa, eu esqueço tudo, eu gosto muito de estar aqui, porque assim, ó, eu fui acolhida por vocês (Paciente 4).

Se vir [a música] é melhor, claro, a gente passa o tempo mais rápido, né, eu fico contente também, né, pelo menos me ajuda a passar o tempo (Paciente 1).

Vale destacar igualmente que a música, atrelada ao contexto cultural, muitas vezes tem a capacidade de relacionar-se a momentos significativos da biografia dos sujeitos, mostrando o quanto “a vida é bonita” (Bergold & Alvim, 2011). Desse modo, durante o tratamento, é possível que se resgatem momentos de saúde em meio à doença, pois ao cuidar das emoções, o corpo físico pode relaxar, e os silenciamentos singulares ganham palco em meio às trocas que a convivência social/grupal promove durante a atividade musical. Aqui, o impacto biopsicossocial da música aparece, e a musicalidade conquista aliados por um melhor fazer/cuidar na oncologia.

Impacto da música no tratamento segundo a família: “A minha gente sofrida despediu-se da dor pra ver a banda passar cantando coisas de amor”

Silva et al. (2014) assinalam que, diante da necessidade de falar e ser ouvido, a palavra do outro pode significar para o ser-no-mundo uma possibilidade de cuidado, haja vista que, por meio da palavra, os seres expressam sua existencialidade e acolhem a coragem, o consolo e o ânimo necessários para viver e conviver com o câncer. Nesse cenário, a parceria interdisciplinar entre a psicologia e a música torna possível alargar o campo de ação na direção da acessibilidade ao potencial intrínseco de cada um (Doro et al., 2015), despertando sensações, sentimentos e desenvolvendo habilidades comunicativas:

Eu gosto da música, me dá uma sensação boa, porque daí eu já falo, eu gosto dessa música por causa disso, daquilo, são coisas que no dia a dia a gente não fala. Todo mundo: “Ah, eu gosto daquela música que me lembra de tal coisa, né?”. E aqui a gente fala, né, é bem incrível (Familiar 5).

A comunicação que se desenvolve, pois, entre familiares reflete a comunhão ofertada pela atividade musical ao longo do tratamento. Os grupos ali formados pelo encontro com a música em ambulatório de quimioterapia oportunizam o compartilhar de experiências com outros seres que vivenciam facticidades semelhantes, pois é estabelecido um ambiente reflexivo e interativo mediado pela dialogicidade e pela escuta sensível (Silva et al., 2014), como se observa na fala: “a gente está ali conversando outras coisas, mas aí com a música, já surgiu outro tema ali. Tu vê que a dona já falou, a outra já falou, então a experiência de um é válida para o outro, sabe?” (Familiar 5).

Nesse sentido, percebe-se que outro ponto de amparo surge com a grupalidade mediada pela música: o suporte psicoemocional que o paciente vivencia durante a atividade musical pode auxiliar diretamente o familiar no enfrentamento da doença. Isso se dá pelo fato de a musicalidade ser capaz de transformar desconforto em conforto, mesmo que por poucos momentos, trazendo valor significativo para ajudar os familiares a cuidarem do ente fragilizado pelo câncer. Assim, conforme aponta Fallavigna et al. (2016,), “a música como terapia tem o poder de preencher a alma do ser humano” (p. 9):

Olha, eu não digo que eles não sofram pela doença, mas isso aí transmite para eles uma tranquilidade, dá um outro ritmo na vida. Essa terapia aí que vocês estão fazendo eu acho excelente (Familiar 6).

É, eu, por exemplo, sempre fui da ideia que tudo é válido na vida, e a “Paciente 6”, por exemplo, ela adora esse momento, ela fica triste quando se desencaixa da música, porque quando ela chega em casa, ela não me diz se passou bem ou passou mal, mas diz se hoje não teve música! (Familiar 4).

Seja, então, pela ameaça à vida que o câncer traz, seja pela intensidade do tratamento quimioterápico, o ato de cuidar, nas condições de um adoecimento oncológico, acaba por exigir muita dedicação. A sobrecarga física e emocional, relacionada ao tempo despendido nesse cuidado e às dificuldades inerentes, soma pontos para que as famílias também precisem ser cuidadas. Então, se a música tem a capacidade de tornar os sujeitos mais comunicativos, ela acaba tornando-se um suporte psicossocial e espiritual, pois desperta força e coragem para que eles transcendam a angústia da realidade presente e retomem a esperança. O encontro musical constitui-se, assim, em um espaço concreto para que profissionais se sensibilizem com a condição desses pacientes e seus familiares e desenvolvam uma escuta sensível e uma assistência qualificada para que a família tenha condição de cuidar mais e melhor daqueles que amam (Sales et al., 2011).

O paciente, a música e os sentimentos: “Cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz”

A música como atividade terapêutica em um ambiente de saúde tem a capacidade de despertar variados sentimentos, os quais Silva et al. (2014) enfatizam como a condição de tocar e ser tocado, podendo, assim, compartilhar emoções e, particularmente, experimentar manifestações de alegria ou tristeza. A isso alude a fala do paciente 2: “desperta amor, desperta paixão, desperta carinho, muito carinho, uma coisa assim que tu te sente acolhida, é como se tivessem te fazendo um carinho”.

A música como terapia também torna o paciente mais comunicável; representa uma ferramenta de apoio que desperta coragem para transcender a angústia de sua condição existencial. Além disso, ela atua como entretenimento, traz alegria e emoção, mesmo que por poucos momentos, minimizando aquela aflição relacionada, em casos mais graves, à ameaça de terminalidade da vida (Fallavigna et al., 2016). Como é possível verificar nos relatos:

Alegria, fico alegre, fico faceiro, não pensa em doença, não pensa em nada quando está escutando música, não pensa, né, quando está escutando, desvirtua, tira o pensamento da doença (Paciente 5).

Fica assim, ó: ah, que pena que terminou, eu queria mais, eu queria todos os dias (Paciente 4).

Outro aspecto importante desse processo é pertinente à espiritualidade, pois segundo Costa et al. (2016), a mesma também é bastante utilizada por pacientes com câncer que referem orar e fazer promessas como maneiras de expressar sua fé, na tentativa de melhor se ajustar à situação de doença.A influência da música nesse aspecto espiritual pode ser vista no relato que segue:

À noite, antes de dormir, eu sempre rezo, faço evangelho em casa, eu rezo, as pessoas que estão passando por aquilo […] e deito na cama e rezo de novo e lembro da música, das pessoas que estavam aqui, e agradeço todas as noites esse lugar aqui [a clínica] (Paciente 8).

Silva et al. (2014) assinalam que o paciente, diante das preocupações e incertezas de sua vida, reaviva reminiscências. Dessa forma, os encontros musicais podem atuar como um remédio para a dor e o sofrimento e como um alimento espiritual, como apontam os discursos:

Eu ouço essas meditações à noite, isso me ajuda muito a pegar no sono, a acordar no outro dia melhor, essas [músicas] aqui também, me despertou muita paz, muita tranquilidade, muita alegria, eu adoro vir nos dias que ela está aí, para eu poder ouvir (Paciente 7).

Ela está tocando… aquilo fica, te soa bem nos ouvidos, te dá uma paz, eu sinto assim da música, eu acho esse projeto da música, acho que tem benefícios para as pessoas, não viu que a senhora ali disse que a música cura até a dor dela?! (Paciente 4).

Assim, os encontros musicais acabam por permitir a expressão de sentimentos, estimular a abertura ao mundo e a si mesmo, oferecendo um momento de reflexão existencial e espiritual e impulsionando um melhor ajuste ao momento do tratamento. Na perspectiva de vencer a luta contra o câncer, a musicalidade guiada no ambulatório quimioterápico acaba, então, por constituir um caminho para melhorar a qualidade de vida (Ferreira, Dupas, Costa, & Sanchez, 2010), representando um suporte que proporciona conforto, reflexão e motivação diante das adversidades que vêm do enfrentamento da doença (Sales et al., 2011).

A família, a música e os sentimentos: “Veja a nossa vida como está, mas eu sei que um dia a gente aprende… quem acredita sempre alcança…”

A música costuma apresentar-se como instrumento facilitador de grande valia na comunicação entre paciente e família. Isso se dá por existirem casos em que os sujeitos sentem-se limitados a expressar-se por meio das próprias palavras, em decorrência das morbidades inerentes da doença e do tratamento. Uma vez que o exprimir encontre-se, então, reduzido, a integração da comunicação pode ser articulada com alguns recursos provenientes de metáforas, analogias, parábolas, filmes, parcerias com outras especialidades e arte, por sua contribuição terapêutica como ação facilitadora na manifestação dos componentes subliminares da psique (Doro et al., 2015). A isso servem os encontros musicais, que, conforme Fallavigna et al. (2016), funcionam como suporte para lidar com a doença de um ente querido, influenciando positivamente no curso da doença por meio do aprendizado no compartilhar das emoções:

É um sentimento de prazer, porque tu está ali escutando e já está pensando em como a gente vive, essa música diz tudo, essa letra que está cantando é a letra que a gente precisaria para seguir a vida para frente, né? (Familiar 1).

Eu fiquei maravilhada com esse projeto de vocês, muito bom, olha, que vocês continuem com esse projeto, para esse povo que vem aqui com o problema que tem na vida deles, isso aí eu acho que é o melhor momento que eles vivem, que eles saiam daquele problema que eles têm, que eles saiam do mundo, que eles vejam de outra forma (Familiar 6).

Por conseguinte, cabe também acrescentar que, como forma de comunicação, a música produz sentimentos variados que propiciam refletir sobre a própria existência e auxiliam na administração de situações vividas (Barcelos, 1979). Isso pode trazer conforto e amparo a quem ouve, induzir o indivíduo à percepção de si em sua singularidade, aspecto muito relevante quando se fala no cuidado ao cuidador, conforme se vê nas sequências:

Eu acho que o que eu entendi ali despertou, assim, que a gente tem que aproveitar a vida, o momento, que a gente não sabe o dia de amanhã (Familiar 3).

Eu me abro muito, eu conto coisas para elas, para vocês aqui que eu não falo para ninguém, né, e eu falo na frente de todo mundo, porque, às vezes, eu estou ali na música e eu falo para todo mundo, e eu estou assim mais solta (Familiar 5).

[A música] me passa muito aquela coisa assim do conforto, da lembrança… ela começou a falar da mãe dela e eu me lembrei da mãe, que a mãe também estaria assim do lado, e eu sei que ela está, pelas nossas convicções religiosas, esse tipo de coisa boa assim, sempre com aquela coisa de tu trazer sentimentos bons (Familiar 2).

É possível verificar, pois, o quanto, mesmo diante do sofrimento e da desesperança, o equilíbrio pessoal aparece com a música, produzido em meio a uma harmonia expressa pela consciência de emoções profundas e de descarga emocional (Fallavigna et al., 2016). Desse modo, também vale considerar que a possibilidade de construir novos significados para o adoecer e para os receios de conviver com um ente querido é transpassada aos familiares, assim como para os pacientes é relevante o amparo espiritual, entendido como aporte a crenças e valores que constituem o existir. Nesse sentido, a possibilidade de trazer novos sentidos à experiência do câncer e do papel enquanto cuidador de um familiar vincula-se à habilidade dos profissionais de propor ações que amparem tais demandas. A atividade musical vem, assim, ao encontro desse cuidado espiritual e humanizado por permitir ao familiar ouvir atentamente o doente, acalentá-lo, estar presente em sua dor e sofrimento (Pinto et al., 2015).

Reflexos da música em longo prazo: “Marcas do que se foi, sonhos que vamos ter, como todo dia nasce, novo em cada amanhecer”

Quando se reflete sobre o impacto da música na vida daqueles que com ela interagem, passamos a entendê-la como uma ação mobilizadora de afetos. Isso se complementa pela capacidade da música de exercer ação psicofisiológica, favorecendo o indivíduo, por meio de seus elementos constitutivos (ritmo), elementos ativos (melodia), elemento afetivo (harmonia), elemento intelectual (letras), podendo auxiliar, assim, os sujeitos que com ela interatuam. Como ferramenta terapêutica em ambientes de saúde/tratamento, percebe-se que a música age, ainda, tanto no auxílio da situação presente (adoecimento) quanto no enfrentamento das relações e adaptações que a doença exige dos envolvidos (para além do curto prazo). E pode-se ilustrar essa ação com a fala a seguir:

É um momento de relaxamento mental, tu para e escuta e interioriza e daqui vai para a mente, né, e a gente pode chegar em casa e compartilhar, falar, chegar contando a experiência de hoje que foi maravilhosa de ouvir música no ambulatório. É uma bênção poder escutar a música, parar para ouvi-la, para depois chegar em casa, comentar com o pessoal o quanto faz bem para a saúde da gente, com certeza (Paciente 3).

Considera-se também que o recurso musical busca proporcionar expressão ao cuidador, seja em forma de palavras, seja de sons ou mesmo de silêncios, podendo auxiliá-lo na melhoria da qualidade de vida dele e de seus entes “cuidados”, contribuindo para que essa relação/vinculação seja mais saudável, gerando frutos para a vida diária, transpondo o ambiente de tratamento (Santos, Zanini, & Esperidião, 2015):

Pode trazer bastante benefício, né, porque aí a gente pode parar um pouquinho e vou raciocinar: aquela música estava falando sobre esse assunto, ou tu quer relaxar, vai escutar uma música, vou procurar aquela música que estava tocando lá [no ambulatório de quimioterapia], eu acho que muda a nossa rotina (Familiar 3).

Depois de ouvir uma música na voz dessa menina, que ela é excelente, a pessoa tem que sair melhor [daqui] (Familiar 4).

Por conseguinte, Karkow et al. (2015) esclarecem que, frente às incertezas advindas da situação de saúde do paciente, inclusive no que diz respeito à possibilidade de sua morte, a família busca, em suas crenças, elementos que a mobilizem esperançosamente. Ainda vale salientar que a reestruturação dos papéis familiares aparece diante de uma enfermidade e faz com que os entes encontrem, em atividades como a música, ajuda para identificar recursos que impulsionem sentimentos de confiança, otimismo, capacidade de superação e serenidade:

Eu acho que esse momento que eles vivem aqui, dentro dessa clínica, esse pequeno ato, esse pequeno gesto que vocês fazem aqui, eu acho que eles vivem o mundo de sonhos (Familiar 6).

A gente vai tranquilo no caminho, não vê risco de nada, até chegar em casa, que o nosso caminho não é muito perto, dá uns 25 quilômetros, e nesses 25 quilômetros, a gente ainda tem, parece, a pessoa tocando no ouvido da gente. Serenando e a gente vai com calma, vai indo com calma até chegar ao nosso destino (Familiar 7).

Pode-se, então, pensar que a atividade musical medeia, assim, a conversação e a emersão de um estado de isolamento e, muitas vezes, de sofrimento, seja pela tranquilidade que pode produzir, seja por algumas mudanças que é capaz de acarretar nos sujeitos, despertando novos modos de olhar para a vida e de viver a vida (Silva et al., 2014), como se pode observar:

É como se uma mãe tivesse acarinhando um filho, uma mãe canta para um filho ninar, um carinho, um afago. Aquela música que ela canta é carinho para mim. Vou sair daqui leve, com o soar da música ainda em meus ouvidos, tá? É muito bom (Paciente 2).

Têm problemas, muita gente com problema, e muitas vezes eles não dividem com ninguém, não tem com quem dividir, e aquilo ali eles assumem para si. E aqui dentro da clínica, um momento de tranquilidade, um momento de sonho, eles tentam pensar neles. Ameniza, ameniza, com certeza, pela minha irmã eu vejo. Olha o que a “Paciente 6” é agora, “Paciente 6” não foi no passado! (Familiar 6).

Compreende-se, assim, que a música facilita a expressão de emoções, a comunicação interpessoal, a interação entre os indivíduos e a equipe de saúde e oportuniza o compartilhamento de experiências, tornando a vivência do adoecer mais leve de ser enfrentada:

Eu assim, ó, eu acho que me tornei uma pessoa bem mais alegre e mais comunicativa. Eu me surpreendo, aqui eu converso muito, eu rio, eu brinco com as gurias, mas eu não sou geralmente assim, eu sou mais tímida, só que soltei mais, eu consigo conversar mais, eu consigo falar da doença dele sem ficar com aquela angústia (Familiar 5).

Tu já sai com outro sentimento daqui, né? Ela fez o tratamento, mas com certeza, ela vai sair, eu vou sair mais confortável, tu sai assim meio leve. Esse momento eu acho que foi muito bom, me tirou muito o peso do que eu estava passando nos últimos dias, eu acho que te relaxa, te dá conforto, alivia o estresse. Foi esse momento de me deixar relaxada, massageada, vou dizer assim que eu estava precisando, me senti como se tivesse feito ali uma massagem nas costas [risos], me tirasse um peso, por isso acho que é bom, bom continuar (Familiar 2).

Vê-se, desse modo, a relevância de reconhecer que um corpo não é um mero corpo, mas a morada de um indivíduo singular, emotivo e possuidor de uma identidade genética e energética expressa na peculiaridade psíquica (Doro et al., 2015). É nesse aspecto que a musicalidade se entrelaça como técnica terapêutica complementar, pois, ao proporcionar relaxamento, contribui para que o sujeito modifique suas relações com seu corpo, com outras pessoas e com suas próprias emoções. Constrói-se, com isso, oportunidades de reorganizar e reintegrar o que é percebido como desestruturado (Souza, Forgione, & Alves, 2000), principalmente quando a experiência do momento é uma doença grave como o câncer.

Nesse entrelaço biopsicossocial, a música tem, assim, alcançado efeitos psicofisiológicos que podem contribuir para a redução do estresse e dos níveis de cortisol (Nuki, Yoshiuchi, & Nomura, 1999) e permitir elaborar uma intrincada rede de sensações, emoções, sentimentos e significados simbólicos e culturais, intrínseca a cada ser humano, capaz de ressoar e produzir diversos efeitos terapêuticos. Como se pode observar nos relatos, a música proporciona, aos cuidadores e/ou familiares, um recurso adicional, pois contribui para a humanização dos espaços de tratamento, podendo criar momentos de prazer, melhorar o humor e alcançar relaxamento e bem-estar (Petrovsky et al., 2015). E aos pacientes, seus impactos estendem-se à redução da dor, do estresse, à promoção de conforto, relaxamento muscular e dignidade, podendo, inclusive, alcançar efeito ansiolítico prolongado após a intervenção (Klainin-Yobas, & Yew, 2015; Leão et al., 2011).

Para acessar o resumo, introdução e considerações finais, acesso o link http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932020000100153