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Natalia Schopf Frizzo
Psicóloga

CRP 07/21597

 

Na perspectiva existencial, convivem quatro mundos distintos, porém simultâneos, nos quais o homem existe. Há o mundo-ao-redor (biofísico), o ser-com-os-outros (relacionamentos), o mundo-próprio (subjetivo), o mundo-com-o-desconhecido (transcendente/espiritual). Neste cenário, o atravessamento imposto pela doença na biografia de um sujeito inflige diferentes condições e horizontes existenciais, que exigirão forte atenção para a experiência presente a fim de reorganizar o projeto de ser–no-mundo.

 

Alterações físicas, modificação de papéis sociais e impacto nos laços afetivos, enfrentamentos emocionais, e conversas com a fé íntima de cada um farão parte do processo. Assim, compreender aspectos importantes da trajetória percorrida até o momento de vida vigente, e ainda silenciar a mente para aguardar as experiências de um futuro que não podemos controlar, são desafios intensos propiciados pelo adoecer em câncer.

 

Podemos dizer que a doença provoca uma ruptura entre o viver anterior (o “ser-saudável”) e o presente (o “ser-doente”), tornando o futuro incerto, já que evidencia a sua possibilidade de deixar-de-ser (o “não-ser”), antes negada ou não percebida (Olivieri, 1985; Machado, Monteiro, Queiroz, Vieira & Barroso, 2007). Então, nestes cenários, estratégias importantes de enfrentamento tornam-se aliadas no cuidado e na reapropriação da própria identidade. E exemplo disto é o Mindfulness (atenção plena).

 

Integrante das práticas milenares, que vêm sendo resgatadas pela cultura ocidental, a atenção plena compõe um conjunto de técnicas meditativas orientais que visam viabilizar melhora na qualidade de vida. E o caminho para esta conquista envolve estar totalmente focado no aqui e no agora, com atenção plena para o que se está fazendo. Desafiador, não? Mas perfeitamente possível, como tudo que verdadeiramente nos propomos a aprender e exercitar. A tendência de nosso cérebro é a inconstância, e domá-lo não é tarefa simples. Mas, o mindfulness nos apresenta uma oportunidade de acalmar a mente e alcançar um estado de consciência plena.

 

A pergunta chave é: você já se pegou em uma situação de ruminação, remoendo o passado e/ou sentindo-se ansioso pelo futuro? Se sim, quando existe um câncer na jogada, é possível que essa resposta seja um Sim com letra maiúscula. É neste sentido que o mindfulness pode ser fonte de ajuda, uma vez que, por meio de exercícios diários de foco intencional nas experiências do momento presente, aprendemos a manter a mente aberta e sem pré-julgamentos.

 

Naturalmente, vivenciar uma doença ameaçadora acrescenta ao psicológico uma carga emocional severa, que por oras transita entre tristeza e até depressão, outrora entre esperança e positividade. E saibam, está tudo bem. É assim mesmo. Estar presente conscientemente na experiência da doença envolve transitar entre variadas emoções e, portanto, quando falamos em atitude não julgadora (um dos pontos do mindfulness), nos referimos ao esforço para aceitar que os sentimentos negativos fazem parte da vida. Aceitar a realidade pode ajudar a lidar melhor com as diferentes situações vividas e, com os recursos e ajuda certos (porque ninguém precisa dar conta de tudo sozinho), entender o que acontece em volta e dentro de você pode ser transformador.

 

Este estado mental provocado ou revelado pela atenção plena, mesmo que por alguns momentos, torna possível estar presente e tranquilo, e muda o seu comportamento e sua atitude em relação a você mesmo e ao mundo. Especificamente na oncologia, intervenções baseadas na atenção plena estão em andamento acerca de 20 anos, e cada vez mais evidências científicas apoiam sua eficácia. Sabe-se que técnicas de mindfulness são especialmente úteis para administrar experiências referentes ao diagnóstico, tratamento e sobrevivência ao câncer, dentre elas: sensação de perda de controle, incerteza sobre o futuro e medos de recorrência da doença, além de uma variedade de sintomas físicos e psicológicos, incluindo depressão, ansiedade, insônia e fadiga. E estudos ainda mostram que a prática da atenção plena resultou em melhorias em vários aspectos psicológicos e biológicos, incluindo declives de cortisol, pressão arterial e comprimento de telômeros, em vários grupos de pessoas que enfrentaram o câncer (Carlson, 2016).

 

Ainda vale ressaltar, que, além da redução de insônia e melhoria do humor e qualidade de vida, outro benefício da intervenção em atenção plena na oncologia, identificado em pesquisa, foi no Crescimento Pós-Traumático - a capacidade de atingir melhoras como um todo após vivenciar um evento que põe a vida em risco, conforme aponta Marina Neumann, diretora do ILAMB – Instituto Latino Americano de Mindfulness e Bem Estar.

 

Exercitar atenção plena, então, significa prestar atenção de propósito, com uma atitude sem julgamento. É uma maneira de estar no mundo (pode-se estar mais ou menos consciente a qualquer momento) e uma prática (meditação da atenção plena) que desenvolve a habilidade ou a capacidade de estar consciente (Carlson, 2018). E, neste sentido, o exercício de atenção plena ajuda os pacientes oncológicos a se sentirem melhores consigo mesmos, aceitarem seu estado presente e se tranquilizarem com relação ao futuro.

 

Contudo, deve ficar claro que o mindfulness não se trata de uma “prática milagrosa” e o treinamento em atenção plena não se destina a substituir o atendimento psiquiátrico e psicológico padrão (Carlson, 2018). Trata-se, sim, de uma terapia integrativa e complementar, capaz de dar mais força para encarar o momento presente.

 

Então, em pleno Outubro Rosa, mês de conscientização ao cuidado e prevenção de doença, topa começar? O tempo voa e a hora de se amar é agora!

 

Referências:

Carlson, L (2016). Mindfulness-based interventions for coping with cancer. Ann N Y Acad Sci 1373:5-12. Crossref, Medline, Google Scholar

Carlson, L. (2018). Mindfulness in Cancer Care: Hype or Help? Disponível em: https://www.ascopost.com/issues/july-10-2018/mindfulness-in-cancer-care/. Acesso em 24 set 2019.

Machado, M.F.A.S.; Monteiro, E.M.L.M.; Queiroz, D.T.a; Vieira, N.F.C.; Barroso, M.G.T. (2007). Integralidade, formação de saúde, educação em saúde e as propostas do SUS: uma revisão conceitual. Ciênc. saúde coletiva, vol.12, n.2, pp. 335-342. Olivieri, Durval Pessoa. (1985). O "ser doente": dimensão humana na formação do profissional de saúde. São Paulo: Editora Moraes.